Existe uma mudança em curso no setor financeiro que não cabe mais na narrativa tradicional de “adoção de tecnologia”. Se existe uma leitura estratégica possível sobre o momento do setor financeiro, ela passa menos pela adoção pontual de novas tecnologias e mais pela reconfiguração estrutural das bases do negócio. O que estamos vendo não é a incorporação de novas ferramentas, mas a reconfiguração das bases sobre as quais o mercado opera.
Essa foi a mensagem central do Torq Talks BH 2026, realizado como parte da programação oficial da BH Tech Week, em Belo Horizonte, no contexto da mobilização do ecossistema em torno do Minas Summit, neste mês de junho.
O evento, na sede da Evertec em Belo Horizonte, reuniu executivos e especialistas para discutir como IA, Open Finance, embedded finance, tokenização e modernização tecnológica estão redesenhando a indústria a partir da lógica de ecossistema.
Ao reunir, como painelistas, executivos com visões complementares, o evento deixou uma mensagem clara de que: o desafio já não é entender tendências, mas reposicionar a oferta de produtos e serviços dentro de uma nova arquitetura de mercado.
Acesse e assista ao Torq Talks BH 2026 completo!
Mudança estrutural: de produtos para arquitetura
Open Finance, Pix e embedded finance deixaram de ser iniciativas isoladas e passaram a funcionar como infraestrutura compartilhada. Dados circulam, pagamentos se tornam camada e serviços financeiros passam a ser integrados de forma invisível à jornada do cliente.
Os números apresentados no evento deixam essa mudança mais tangível. O Open Finance no Brasil já opera na escala de dezenas de bilhões de chamadas mensais de API, enquanto o embedded finance consolida um mercado relevante e em expansão.
Esse cenário altera o centro da competição. O diferencial deixa de ser amplitude de portfólio e passa a ser capacidade de orquestração. Em um ambiente interoperável, ganha quem consegue combinar dados, parceiros, infraestrutura e inteligência de forma mais eficiente. Não se trata mais de quais produtos desenvolver, mas de em qual arquitetura estratégica a organização está inserida.
O peso do passado como limitador de crescimento
Se a nova arquitetura está clara, o principal obstáculo também. Sistemas legados deixaram de ser um tema técnico. Passou a ser uma restrição direta à velocidade, à integração e à capacidade de inovação.
A escala deste problema é conhecida. O setor ainda opera sobre centenas de bilhões de linhas de código legacy, muitas delas em linguagens em desuso, com forte dependência de conhecimento acumulado ao longo de décadas.
Mas o ponto relevante aqui não está no diagnóstico, e sim na mudança recente de abordagem. Com o avanço da IA, começa a surgir uma alternativa mais viável à antiga escolha entre substituição total ou convivência indefinida com o legado. Hoje já é possível mapear sistemas, identificar dependências, traduzir código e conduzir modernizações progressivas mantendo a operação ativa.
Essa mudança altera o papel da modernização dentro da agenda executiva das empresas de tecnologia para o mercado financeiro. Ela deixa de ser um projeto episódico e passa a ser uma capacidade contínua de evolução da arquitetura.
Mas há um ponto que o próprio painel ajudou a reforçar. Legado não é apenas código. É também processo, cultura e decisão acumulada. E essa camada continua sendo, em grande medida, um problema de liderança.
A tensão que o mercado ainda não resolveu
Se a tecnologia avança de forma consistente, o mesmo não acontece com a capacidade das organizações de absorvê-la. Existe uma tensão real entre velocidade de mudança e capacidade de resposta.
De um lado, uma oferta crescente de tecnologias, modelos e soluções. De outro, organizações que ainda operam com estruturas, processos e governança concebidos para outro contexto. Essa assimetria se traduz em um sintoma conhecido: muitas iniciativas de IA, poucos impactos relevantes.
Estudos recentes apontam que a maior parte dos projetos não gera o retorno esperado. Não por limitação tecnológica, mas por ausência de base organizacional compatível.
Esse ponto conecta diretamente com uma leitura que vem se consolidando no mercado: a inovação saiu do campo conceitual e entrou na lógica de entrega. Não basta testar. É preciso escalar com resultado.
O salto agora é outro: de automação para autonomia
Se, nos últimos anos, a transformação digital foi marcada pela automação, agora, o movimento muda de patamar. A discussão trazida por Lucas Carvalho, Head de Produtos da Evertec, foi simples e poderosa.
Automação executa o que foi programado. Autonomia percebe, decide e aprende. Na prática, isso já está acontecendo. Decisões de crédito que antes levavam horas passaram a ser feitas em minutos. Sistemas de fraude identificam padrões em tempo real. Processos de compliance deixam de depender de controle manual.
O impacto é direto para o negócio. Não se trata apenas de eficiência. É uma mudança na forma como decisões são tomadas. A inteligência artificial não é mais uma frente isolada. Ela se torna uma capacidade estrutural da organização.
IA como camada estrutural
Outro equívoco comum é tratar inteligência artificial como um conjunto de iniciativas espalhadas pela organização. Nesse sentido, o que emergiu do evento, principalmente na fala de Lucas Carvalho, head de produtos da Evertec Brasil, foi uma leitura diferente.
A IA já não deve ser entendida como projeto. Ela está se consolidando como camada transversal que redefine operação, decisão e desenvolvimento de produto. A evidência disso já aparece nos próprios casos de uso.
Os ganhos de eficiência são importantes, mas não são o principal. A mudança mais relevante está no deslocamento da tomada de decisão. Crédito, fraude e compliance deixam de depender de processos lentos e passam a operar em tempo quase real, com maior capacidade de adaptação.
Esse tipo de transformação tem impacto direto em risco, tempo de resposta e experiência do cliente. E, sobretudo, muda o desenho organizacional. Profissionais deixam de operar apenas como executores e passam a atuar como arquitetos e tomadores de decisão sobre sistemas inteligentes. Para o C-Level, a implicação é objetiva. IA deixa de ser uma frente de inovação e passa a ser um tema de modelo operacional.
Inclusão e acesso como parte da equação estratégica
Uma discussão nem sempre explorada, mas igualmente relevante, também ganhou espaço no Torq Talks: apesar de toda evolução, o acesso ainda é desigual.
Enquanto o setor avança em temas como tokenização e ativos programáveis, parte da população permanece com acesso limitado a serviços financeiros básicos ou a instrumentos mais sofisticados de investimento.
Carlos André Ribeiro, Head de Desenvolvimento de Produtos da Dimensa, destacou que grande parte da população ainda está distante de produtos financeiros mais sofisticados, como ativos tokenizados.
Carol Gilberti, CEO da Mubius WomenTech Ventures, conectou esse ponto com uma realidade ainda mais estrutural. Mulheres empreendedoras, por exemplo, continuam enfrentando barreiras relevantes de acesso a crédito e investimento.
Isso reforça uma leitura essencial: tecnologia não garante impacto por si só. Impacto acontece quando tecnologia encontra escala, acesso e uso real, conectando acesso financeiro a temas estruturais como educação, inclusão e diversidade.
Para líderes, essa discussão não é periférica. Ela toca diretamente a capacidade de expansão de mercado e captura de valor. Sem escala de uso, a inovação permanece restrita ao discurso.
O que muda para liderança
O principal mérito do Torq Talks BH 2026 foi menos apresentar tendências e mais organizar implicações. Para o nível executivo, algumas conclusões se destacam:
- O setor financeiro está migrando para uma lógica de plataformas e ecossistemas;
- O diferencial competitivo passa a ser definido por arquitetura e não por produto;
- Legado se consolida como tema estratégico (e não técnico) para alavancar a inovação e o crescimento;
- IA se posiciona como camada organizacional, não como iniciativa isolada;
- Governança deixa de ser controle e passa a ser condição de escala com garantias sólidas para o mercado e investidores;
- Inclusão e acesso tornam-se fatores reais de expansão de mercado.
No fundo, o que está em jogo é uma transição de modelo: a) de estruturas fechadas para ecossistemas; b) de processos rígidos para sistemas adaptativos; c) de decisões centralizadas para inteligência distribuída.
A pergunta que permanece
Eventos costumam entregar respostas. Este, talvez, tenha sido mais útil por reforçar a pergunta certa. Não se trata de acompanhar todas as tecnologias nem de reagir a cada nova tendência.
A questão central para quem lidera hoje é mais direta: sua organização já opera dentro dessa nova lógica de arquitetura ou ainda responde à anterior?
Essa resposta, mais do que qualquer tecnologia específica, será determinante nos próximos ciclos do setor financeiro, que não está apenas evoluindo: está sendo reconfigurado.
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