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15 JUN 2026 6 MIN DE LEITURA

Como a América Latina está redesenhando os pagamentos cross-border

Pagamentos instantâneos, Open Finance, APIs e stablecoins estão ampliando as possibilidades dos pagamentos cross-border na América Latina. O artigo apresenta os desafios da interoperabilidade financeira regional e mostra como essas iniciativas contribuem para transferências internacionais mais rápidas, acessíveis e eficientes para empresas e consumidores.

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      Transferir dinheiro entre países sempre foi caro, lento e burocrático. Em 2025, o Pix movimentou R$ 35,36 trilhões e registrou 79,8 bilhões de transações, segundo dados do Banco Central divulgados pelo G1. Esse contraste diz muito sobre o momento que a América Latina atravessa e como ela vai se adaptar para pagamentos cross-borders.

      O que funcionou durante décadas no sistema financeiro internacional começa a ser questionado por uma infraestrutura regional mais ágil. Open Finance, APIs financeiras e pagamentos instantâneos estão criando as condições para que transferências entre países operem com a mesma praticidade das transações do dia a dia.

      Continue lendo esse artigo e entenda como esse processo funciona na prática, e o que ele muda para empresas e consumidores.

      Os desafios dos pagamentos internacionais

      Por décadas, os pagamentos cross-border foram marcados por estruturas pouco eficientes. A dependência de redes bancárias correspondentes, os custos de conversão cambial e os prazos de liquidação tornaram as transferências internacionais mais lentas e caras do que o necessário.

      Na América Latina, esse cenário tem contornos particulares. A fragmentação dos sistemas de pagamento entre os países, combinada com marcos regulatórios distintos e alguma instabilidade política em partes da região, cria camadas adicionais de complexidade. Entre os fatores que mais pesam nesse contexto:

      • Volatilidade cambial, que gera riscos tanto para consumidores quanto para empresas que operam com múltiplas moedas;
      • Regulações cambiais rígidas e pouco harmonizadas entre os países;
      • Lacunas de infraestrutura tecnológica que dificultam a conectividade entre sistemas financeiros;
      • Custo elevado de intermediação, que onera especialmente as remessas de menor valor.

      Esses elementos, juntos, sempre limitaram a interoperabilidade financeira regional. O que está mudando é a velocidade com que alternativas surgem para contorná-los.

      Pagamentos instantâneos: um novo padrão de referência

      O Pix é o caso mais emblemático dessa mudança. Lançado pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2020, o sistema já conta com mais de 170 milhões de usuários e movimentou R$ 35,36 trilhões em 2025, segundo dados do Banco Central.

      O impacto prático foi criar uma expectativa nova entre consumidores e empresas: pagamentos devem ser imediatos, gratuitos ou de baixo custo, e disponíveis a qualquer hora. Esse padrão começa a pressionar também os pagamentos internacionais.

      Outros países da região caminham na mesma direção. Na Colômbia, a Transfiya conecta bancos e fintechs para transferências em tempo real. No Peru, Plin e Yape somam dezenas de milhões de usuários. Na Argentina, o Transferências 3.0 avança na mesma lógica. A pergunta que o mercado começa a fazer é: quando esses sistemas vão se conectar entre si?

      Interoperabilidade financeira: o que falta para a integração regional

      Para que os pagamentos cross-border ganhem a fluidez dos pagamentos domésticos, é preciso que sistemas de países diferentes consigam trocar informações de forma padronizada e segura. Essa capacidade de comunicação entre infraestruturas distintas é o que se chama de interoperabilidade financeira, e ela ainda é um gargalo central na América Latina.

      O Open Finance tem um papel concreto nesse avanço. Ao criar regras para o compartilhamento estruturado de dados financeiros entre bancos e outras instituições, ele abre caminho para que serviços de pagamento operem além das fronteiras de um único sistema. No Brasil, o modelo já está em funcionamento. Em outros países da região, os marcos regulatórios ainda estão sendo construídos, mas a tendência é de convergência.

      APIs e stablecoins como parte da solução

      Dois elementos tecnológicos ganham espaço nesse processo: as APIs financeiras e as stablecoins.

      As APIs funcionam como conectores entre sistemas que, de outra forma, não se comunicariam. Elas permitem que fintechs e bancos integrem serviços de pagamento sem precisar reconstruir toda a infraestrutura do zero. Na prática, isso reduz o tempo e o custo de criar soluções cross-border funcionais.

      Já as stablecoins são ativos digitais atrelados a moedas como o dólar, o que reduz a volatilidade associada a outras criptomoedas. Em pagamentos internacionais, elas permitem liquidações mais rápidas e com menor custo de conversão, o que é especialmente relevante em países onde o câmbio é mais instável ou o acesso a serviços bancários tradicionais é limitado. Não são uma solução universal, mas representam uma alternativa viável para determinados fluxos de pagamento.

      Os números mostram que essa adoção já saiu do campo teórico. A América Latina movimentou bilhões em transações de stablecoins em 2025, crescimento de 89% em relação ao ano anterior, impulsionado principalmente por remessas e pagamentos internacionais. Brasil e Argentina lideram esse movimento, com empresas como Nubank, Bitso e Ontop integrando stablecoins a pagamentos de forma cada vez mais transparente para o usuário final. O que era uma alternativa para quem não tinha acesso ao sistema bancário tradicional começa a se tornar infraestrutura para quem quer operar com mais agilidade dentro dele.

      O que muda na prática para empresas e consumidores

      Para empresas que operam no comércio internacional ou no e-commerce, pagamentos cross-border mais eficientes têm efeito direto na operação. Liquidações mais rápidas melhoram o fluxo de caixa. Custos menores de intermediação aumentam a margem. E menos fricção no processo de pagamento reduz o abandono em transações internacionais.

      Para os consumidores, a mudança é mais imediata: enviar dinheiro para outro país, pagar por um serviço estrangeiro ou receber uma remessa deixa de exigir burocracia e passa a funcionar com a praticidade dos pagamentos digitais que já usam no dia a dia.

      A transformação dos pagamentos cross-border na América Latina não depende de uma tecnologia que ainda está por vir. Os componentes já existem: sistemas de pagamento instantâneo consolidados, regulações de Open Finance em desenvolvimento, APIs disponíveis e uma base crescente de usuários digitais.

      O que está em construção é a camada de integração entre esses elementos. Quando ela estiver madura, transferir dinheiro entre países na região deve ser tão simples quanto fazer um Pix. E esse momento, ao contrário do que se costumava dizer, não parece mais tão distante.

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