A implementação do split payment, nova ferramenta de retenção e recolhimento automático de tributos, foi adiada para 2027, porém especialistas alertam que 2026 será o período mais importante para adaptação tecnológica. A infraestrutura do mecanismo, segundo informações do Governo, deverá processar um volume de dados muito superior ao do Pix e vai exigir atenção das empresas do setor.
Segundo Christian Lateulade, Diretor de Pagamentos da Evertec no Brasil, embora o debate sobre a reforma tributária tenha se concentrado até agora nas mudanças fiscais, o maior desafio passa a ser tecnológico. A nova ferramenta irá demandar integração entre fintechs, bancos, ERPs, plataformas de pagamento e órgãos fiscais, o que, para o executivo, determinará o sucesso do split payment.
“2026 é considerado um período de testes que exigirá investimentos em modernização tecnológica, APIs, governança de dados, atualização de ERPs, ferramentas de conciliação e estruturas de compliance. Não se trata apenas de atender uma exigência regulatória, mas de preparar toda a arquitetura operacional para um novo modelo transacional. Quanto antes as empresas mapearem esses impactos, mais consistente será a adaptação quando o modelo entrar em vigor. Quem iniciar essa jornada cedo terá mais tempo para testar processos, ajustar integrações e minimizar riscos operacionais”, explica.
Lateulade ressalta, porém, que as companhias não devem encarar a mudança como “exclusivamente tributária, mas também tecnológica” e aponta que o caixa sofrerá os maiores efeitos. “Muitas empresas utilizam temporariamente o valor do imposto como capital de giro até a data do recolhimento. Com o split payment, esse recurso deixará de circular no caixa. Para uma empresa com faturamento de R$ 750 mil mensais e alíquota efetiva de 26,5%, isso representa quase R$ 200 mil que deixam de transitar pelo caixa antes do recolhimento. Além disso, existe um risco competitivo. Organizações mais preparadas tendem a operar com maior eficiência, menor retrabalho e maior capacidade de adaptação às novas exigências do mercado”, afirma.
O executivo aponta que o split payment terá impactos amplos em diversos setores, mas devem ser mais expressivos “em empresas que operam com ciclos financeiros longos ou margens reduzidas, como o varejo de baixa margem”.
“O impacto é ainda maior em operações em que a venda é à vista e os fornecedores são pagos a prazo, já que os créditos decorrentes de compras só se materializam quando os pagamentos aos fornecedores forem efetivados. Na indústria, a atenção estará voltada para a cadeia de suprimentos, créditos tributários e integração entre fornecedores e compradores. Bancos, fintechs e provedores de tecnologia terão papel central como habilitadores da nova infraestrutura. Embora os desafios sejam diferentes entre os setores, o split payment tende a acelerar a convergência entre pagamentos, tecnologia e gestão tributária, impulsionando um ambiente mais digital e automatizado “, pontua.
Por fim, Lateulade destaca que, para o sucesso da transformação digital, é necessário focar em tecnologia, governança e colaboração. Para o diretor, a segurança cibernética, criptografia e proteção de dados serão indispensáveis. Já sob a ótica da governança, será necessário definir claramente responsabilidades, processos de auditoria e mecanismos de controle.
“O desafio principal não será apenas o volume de dados, mas a qualidade, consistência e velocidade dessas informações. Para que o modelo funcione de forma eficiente, será necessário investir em arquitetura escalável, monitoramento contínuo, automação de processos, validação de dados e mecanismos robustos de contingência. O mercado financeiro brasileiro já demonstrou capacidade para operar estruturas complexas em escala, como o PIX, o open finance e os pagamentos instantâneos, o que cria uma base sólida para enfrentar os desafios do split payment”, conclui.
Esse artigo foi originalmente publicado no portal TIinside