O avanço dos meios eletrônicos de pagamento no Brasil ampliou significativamente a inclusão financeira e a eficiência das transações, mas também elevou a exposição a fraudes financeiras no Brasil. O crescimento do comércio eletrônico, dos pagamentos presenciais com cartões (off-line), das compras on-line (card-not-present), do Pix, dos boletos e da integração promovida pelo Open Finance criou novas oportunidades para criminosos explorarem vulnerabilidades tecnológicas, engenharia social, roubo de identidade e comprometimento de credenciais.
A digitalização ampliou a escala das transações e dos riscos
O Pix permanece como o principal instrumento de pagamento do país. Em 2025, o sistema registrou forte expansão em relação a 2024, mantendo crescimento de dois dígitos no volume de transações e alcançando novos recordes de utilização, com mais de 170 milhões de usuários e mais de 7 bilhões de transações apenas em janeiro de 2026. O volume financeiro mensal já supera R$ 3 trilhões, consolidando o Pix como um dos maiores sistemas de pagamentos instantâneos do mundo.
Apesar desse crescimento, o Banco Central e a Febraban ressaltam que o aumento das operações não representa crescimento proporcional das fraudes, uma vez que a imensa maioria das transações permanece legítima e protegida pelos mecanismos de segurança do Sistema Financeiro Nacional.
Os cartões de pagamento também continuaram crescendo em 2025, impulsionados pelo comércio eletrônico, pagamentos por aproximação e carteiras digitais. A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 demonstra que o setor bancário brasileiro processou aproximadamente 240,8 bilhões de transações em 2025, alta de 11% sobre 2024, sendo 83% realizadas por canais digitais e 78% pelo mobile banking. O Pix permaneceu como o meio de pagamento de maior crescimento, inclusive nas transações realizadas em estabelecimentos comerciais por meio das maquininhas (POS).
Como o perfil do fraudador se tornou mais sofisticado
Operações organizadas e engenharia social
Paralelamente ao crescimento dos meios eletrônicos, o perfil do fraudador evoluiu de maneira significativa. As fraudes deixaram de ser praticadas predominantemente por indivíduos isolados para serem conduzidas por organizações criminosas altamente estruturadas, com divisão de funções entre especialistas em engenharia social, desenvolvimento de malware, lavagem de dinheiro, abertura de contas de passagem (“laranjas”), produção de documentos falsos e comercialização de dados pessoais obtidos em vazamentos.
Essas organizações operam de forma semelhante a empresas, utilizando infraestrutura tecnológica, automação e até modelos de “fraude como serviço” (Fraud-as-a-Service), elevando significativamente o nível de sofisticação dos ataques. As fraudes mais recorrentes incluem uso indevido de cartões em compras on-line, comprometimento de credenciais, emissão de boletos falsificados, adulteração de QR Codes do Pix, phishing, invasão de contas, malware em dispositivos móveis e golpes baseados em engenharia social.
Cada vez mais, os criminosos induzem a própria vítima a autorizar voluntariamente a operação, dificultando sua detecção pelos mecanismos tradicionais de prevenção.
Open Finance e fraude de identidade
O Open Finance também ampliou o desafio para as instituições financeiras. Embora represente um importante avanço para a competição, inovação e personalização de serviços, o compartilhamento consentido de dados financeiros passou a ser explorado por fraudadores que simulam consentimentos, sequestram sessões de autenticação ou utilizam engenharia social para convencer clientes a autorizar acessos indevidos. Assim, o principal risco deixou de ser exclusivamente tecnológico e passou a envolver fortemente a manipulação do comportamento humano.
Outro vetor relevante continua sendo a fraude de identidade durante processos de cadastro para concessão de crédito e cumprimento das exigências de Prevenção à Lavagem de Dinheiro (PLD). Entre os principais exemplos estão o uso de documentos falsificados ou adulterados, abertura de contas com identidade de terceiros, fraude sintética (combinação de dados reais e fictícios) e utilização de selfies manipuladas por inteligência artificial (deepfakes) para burlar biometria facial.
Essas modalidades comprometem diretamente os processos de Know Your Customer (KYC) e são objeto de crescente atenção regulatória, incluindo as obrigações previstas na LGPD e nas normas do Banco Central sobre prevenção à lavagem de dinheiro. O impacto vai além das perdas financeiras: envolve riscos regulatórios e reputacionais relevantes para as instituições.
A inteligência artificial atua nos dois lados
A inteligência artificial passou a desempenhar papel central tanto na evolução das fraudes quanto nas estratégias de defesa. Do lado dos criminosos, modelos generativos permitem produzir deepfakes extremamente realistas, clonar vozes, automatizar campanhas de phishing altamente personalizadas e desenvolver ataques em larga escala com menor custo operacional.
Em contrapartida, instituições financeiras vêm utilizando IA e IA Generativa para análise comportamental, autenticação contínua, detecção de anomalias em tempo real, análise documental automatizada e identificação de contas suspeitas. A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 mostra que Inteligência Artificial Generativa e cibersegurança figuram entre as maiores prioridades estratégicas dos bancos brasileiros — a cibersegurança recebeu prioridade média ou alta de 100% das instituições participantes, e a IA generativa alcançou 84%.
A prevenção precisa acompanhar a velocidade das fraudes
Por que ainda há instituições com postura reativa?
Apesar da evolução tecnológica disponível, nem todas as instituições atuam predominantemente de forma preventiva. Fatores como custos elevados de implementação, necessidade de reduzir fricção na experiência do cliente, restrições orçamentárias, sistemas legados e avaliações econômicas sobre perdas aceitáveis fazem com que parte das organizações concentre esforços na investigação e recuperação após a ocorrência da fraude.
Essa abordagem pode reduzir investimentos imediatos, porém tende a aumentar perdas financeiras, custos operacionais, riscos regulatórios, judicialização e danos à reputação — especialmente diante da crescente velocidade de atuação das organizações criminosas. No contexto das fraudes financeiras no Brasil, onde o volume de transações digitais cresce a dois dígitos ao ano, uma postura reativa representa um risco crescente e difícil de reverter.
Embora o volume absoluto de tentativas de fraude represente uma fração pequena do total de operações — o sistema financeiro brasileiro movimenta centenas de bilhões de transações por ano e dezenas de trilhões de reais —, a velocidade e a sofisticação dos ataques exigem respostas cada vez mais ágeis e integradas.
Gestão de risco como vantagem competitiva
A rápida transformação digital, a expansão do Open Finance e a evolução da inteligência artificial impõem um cenário de permanente adaptação. Instituições que tratam a prevenção a fraudes como elemento estratégico — e não apenas como custo operacional — tendem a preservar melhor a confiança dos clientes, reduzir exposição regulatória e construir vantagem competitiva sustentável.
Prevenção, monitoramento contínuo, compartilhamento de informações entre instituições e inovação tecnológica deixaram de ser diferenciais para se tornarem requisitos de operação responsável no ecossistema financeiro brasileiro.